Mais uma culpa acaba de cair na conta do Bitcoin (BTC). Agora, a maior criptomoeda do mercado está sendo acusada de contribuir para a desvalorização do real frente ao dólar norte-americano. Foi o que deu a entender Bruno Serra, diretor de Política Monetária do Banco Central, em um evendo promovido pelo banco BTG Pactual no início deste mês. As informações são do site Mercado1minuto.

No entanto, há duas formas de compreender o fenômeno – e elas não são autoexcludentes ou conclusivas.

De um lado, representantes do mercado financeiro tradicional corroboram a opinião de Serra e do Banco Central. Investimentos em Bitcoin realizados no Brasil pressionam o mercado cambial na medida em que são contabilizados no balanço de pagamentos como importações. Ou seja, é como se os brasileiros estivessem comprando um “produto” produzido e comercializado fora do país e, assim, retirando a moeda norte-americana do mercado.

Em sua participação no evento, Serra ressaltou que após um período de queda significativa ao longo de 2020, os investimentos em criptomoedas voltaram a crescer ainda no final do ano passado:

“Imaginei que depois da depreciação de 35% em 2020, de 2020 para cá esse fluxo iria diminuir. E na verdade ele não diminuiu. Ele aumentou em 2020 um pouquinho e tem se acelerado em 2021 até o mês de julho, reduzindo um pouco o fluxo em agosto e setembro, mas aumentou e tem se acelerado”.

De acordo com Serra, negociações de criptoativos movimentaram US$ 12 bilhões no Brasil entre 2018 e julho de 2021. O Estrategista-Chefe da Inversa, uma empresa de publicações sobre investimentos e mercado financeiro, ressaltou os efeitos do aquecimento do mercado de criptoativos sobre o câmbio em uma publicação no Twitter.

Na verdade, tanto o volume investido quanto a suposição de que as criptomoedas pressionam a desvalorização do real baseiam-se em uma distorção que é fruto de uma regulamentação que não reflete a natureza dos ativos digitais, e especialmente a do Bitcoin, mas segue uma recomendação do FMI (Fundo Monetário Internacional).

Por serem digitais, os criptoativos não tem registro aduaneiro, mas as compras e vendas por residentes no Brasil implicam a celebração de contratos de câmbio. As estatísticas de exportação e importação de bens passam, portanto, a incluir as compras e vendas de criptoativos.

Se a população está comprando mais Bitcoins do que os vendendo, como acontece agora, o país torna-se importador líquido de criptoativos. Não há, no entanto, nenhuma evidência concreta de que isso esteja de fato contribuindo para a desvalorização do real.

Repercussão

Embora as manifestações de Serra e Natali tenham sido feitas há alguns dias, ao longo desta semana elas começaram a repercutir na comunidade brasileira de criptomoedas. O economista Fernando Ulrich reagiu com perplexidade à suposição.

Em um de seus últimos vídeos veiculados no Youtube, Ulrich atribui a depreciação do real frente ao dólar norte-americano ao afrouxamento da política fiscal do governo, ao descontrole dos gastos públicos e à instabilidade política. A mesma opinião foi compartilhada por Helena Margarido, analista da Monett, em um vídeo divulgado em seu grupo no Telegram.

Ulrich também destaca que o Banco Central não deve promover a estabilização cambial. Segundo ele, o BC prefere optar por deixar o câmbio “à deriva”.

Em um depoimento ao Cointelegraph Brasil, a Diretora de Operações da Convex Research Thata Saeter afirmou que o ciclo de desvalorização do real tem causas internas e externas e teve início há alguns anos atrás.

Além de mencionar a “piora constante da situação fiscal”, ela destacou a atuação complacente do Banco Central diante dos primeiros sinais de pressão inflacionária:

“O Banco Central insistiu em manter uma taxa básica de juros em um patamar muito baixo, não compatível com a realidade do mercado. Essa decisão também afetou a entrada de dólares, que se reduziu bastante. Até mesmo por parte de exportadores brasileiros, que optaram por deixar parte dos seus dólares no exterior.”

Para piorar, o risco político também tem aumentado, com a proximidade do calendário eleitoral de 2022.

Ainda no cenário interno, Saeter destaca a instabilidade política como um fator importante para justificar a desvalorização do real, algo que pode se tornar ainda mais crítico à medida que o país se aproxima das eleições presidenciais de 2022.

No âmbito externo, o fortalecimento do dólar norte-americano frente a outras moedas nacionais entre 2018 e meados de 2020, e novamente agora, contribuiu para a depreciação do real. A valorização do dólar no cenário global tem impacto ainda maior em países emergentes, cujas economias são extremamente dependentes da moeda norte-americana.

A Diretora de Operações da Convex Research considera que o Bitcoin e outras modalidades de investimento no mercado externo têm atraído cada vez mais adeptos no país porque a população está percebendo a perda do seu poder aquisitivo ao manter seu patrimônio exclusivamente em reais.

Ela chama atenção também para um componente geracional que favorece a adoção do Bitcoin não apenas no Brasil:

“Em relação ao Bitcoin, chama a atenção que esse movimento tem ocorrido entre os jovens que encontraram no Bitcoin uma forma de se proteger e um sentimento maior de propriedade e quebra de barreiras geográficas.”

Conforme noticiou o Cointelegraph Brasil recentemente, vem ganhando cada vez mais força e aceitação a narrativa de que o Bitcoin é o melhor ativo de reserva de valor e o mais efetivo para proteção do patrimônio contra a desvalorização de moedas fiduciárias causada pela inflação global.

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