Cássio Rosas. FOTO: DIVULGAÇÃO

A forma como lidamos com o dinheiro está em profunda transformação, ainda que a grande maioria das pessoas não tenha percebido isso. Pouco a pouco, todos os setores observam a constante digitalização das formas de pagamento, impulsionada pelo surgimento de opções bem mais simples e eficientes, como as criptomoedas. Consideradas um recurso restrito à comunidade de tecnologia há pouco tempo, hoje elas cresceram em importância e são vistas tanto como ativos de investimento quanto ferramentas no varejo. Diante desse cenário, um questionamento emerge em empresas e na mente dos consumidores: o que o futuro reserva para as moedas digitais e as de papel?

Em 2018, por exemplo, uma pesquisa do Banco Central mostrava que 96% dos brasileiros utilizavam as cédulas em papel para pagar suas contas e compras. Três anos depois, a situação é outra. A entidade divulgou que apenas 3% dos recursos disponíveis para operações financeiras no país estão disponíveis no formato de papel-moeda. Não à toa, o órgão do Sistema Financeiro Nacional encabeça duas medidas que visam estimular ainda mais a digitalização. A primeira delas foi a criação do PIX em novembro de 2020 – que rapidamente caiu no gosto da população. A outra é a criação do “real digital”, uma moeda digital própria que deve ser lançada nos próximos anos.

Esse movimento é consequência do estabelecimento do mercado cripto entre os investidores e as empresas brasileiras. Suas operações já ocorrem em paralelo ao universo do dinheiro fiduciário, o que apenas reforça ser uma opção já consolidada no cenário global e que certamente deve crescer ainda mais nos próximos anos. Ou seja, ainda que setores conservadores ainda demonstrem descontentamento com essa situação, não dá mais para ignorar o avanço das moedas digitais e a presença do blockchain no ecossistema financeiro. Agora, ou as empresas e instituições financeiras aprendem a se adaptar a elas, ou correrão o risco de perderem relevância entre investidores e consumidores.

Diante disso, a relação entre esses dois mercados tende a se acentuar, estabelecendo pontos de convergência, mas também mantendo suas diferenças principais. Em comum entre as moedas digitais e as fiduciárias, podemos citar justamente o avanço da transformação digital. As criptomoedas mostraram ao sistema financeiro que é possível digitalizar e automatizar os meios de pagamento, fazendo com que as transações sejam mais rápidas e eficientes. Nesse sentido, a tecnologia blockchain se revelou uma grande ferramenta por proporcionar mais segurança e proteção às operações – item fundamental diante do receio que muitos têm em relação ao ambiente virtual.

Mas essa afinidade que o dinheiro fiduciário possui com as criptomoedas não apaga diferenças fundamentais entre elas. Se hoje os bancos centrais desejam implementar as versões digitais de suas moedas é porque eles desejam criar a mesma estrutura segura que o mercado cripto oferece – e só. A digitalização nesses casos é ferramenta para centralizar a emissão desse recurso e, assim, exercer mais controle do dinheiro que circula em todo o país. Bem diferente das criptomoedas e utility tokens existentes, cuja principal característica é descentralização e supressão de intermediários nas transações financeiras. Como se vê, o oposto do que a esfera governamental deseja.

Quando falamos de uma área que passa por grandes mudanças, como é este caso, sempre é temerário prever quais caminhos irão surgir no futuro. Mesmo assim, o atual momento das criptomoedas e do mercado fiduciário permite identificar algumas tendências importantes. A preocupação de que as moedas digitais pudessem substituir as operações financeiras tradicionais está se mostrando infundada. Em contrapartida, o universo cripto tende a consolidar sua posição na economia do dia a dia, posicionando como ferramenta para pagamento de contas e realização de compras – e isso vai levar a uma digitalização constante da nossa relação com o dinheiro.

*Cássio Rosas é diretor de Novos Negócios e Estratégia da Wiboo





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