Tivemos um mês de maio bastante movimentado no mercado de criptomoedas. Para entendermos o que aconteceu, conversamos com Flavia Jabur, jornalista e produtora de conteúdo da BitcoinTrade, corretora de criptomoedas fundada em outubro de 2017 no Rio de Janeiro.

Como foi o mercado de criptomoedas em maio? Quais são as suas perspectivas para os próximos meses?

O mês de maio foi marcado por muita volatilidade no mercado de criptomoedas. Após a queda das bolsas mundiais e dos preços dos criptoativos em março de 2020, devido à pandemia de Covid-19, acompanhamos uma grande valorização de boa parte das criptomoedas. Em apenas um ano, algumas moedas chegaram a valorizar mais de 2.000%. Era claro que, em algum momento, por ser um mercado extremamente volátil, uma correção maior iria acontecer.

A questão é que em maio, algumas notícias acabaram potencializando esse recuo nos preços dos ativos. Após a Tesla ter adquirido US$ 1,5 bilhão em bitcoin em fevereiro, neste mês o CEO da empresa, Elon Musk, tuitou que a instituição não aceitaria mais a criptomoeda como forma de pagamento pelos seus carros devido às preocupações ambientais. O assunto levantado por Musk gerou, imediatamente, uma grande volatilidade no mercado, fazendo com que o preço do bitcoin recuasse mais de 15% em 24h.

Alguns dias depois, a China reiterou que proibiu as empresas de pagamentos e as instituições financeiras de fornecerem serviços relacionados às criptomoedas e ainda alertou os investidores de que se tratava de um mercado especulativo. Essa notícia foi mais um gatilho para aumentar a correção no preço do bitcoin e do mercado como um todo. Depois de vermos o valor do bitcoin atingir quase US$ 65 mil em abril, o preço chegou a tocar nos US$ 30 mil em maio devido a essas notícias.

Para quem investe em cripto há alguns anos, sabe que existem momentos de grande volatilidade no mercado. Porém, muitas pessoas que começaram a comprar criptomoedas desde o ano passado ainda não tinham se deparado com momentos como esse, o que gerou grande desespero em alguns investidores.

Destaco que essa proibição da China já havia sido feita em 2013 e em 2017. Além disso, sobre a fala do CEO da Tesla em relação ao bitcoin, apesar de sim, existir um gasto alto de energia para minerar a principal criptomoeda do mercado, isso porque o bitcoin utiliza um mecanismo de consenso chamado Proof of Work (em tradução livre, prova de trabalho), vale destacar que outros sistemas acabam consumindo mais energia do que o bitcoin.

Recentemente a Galaxy Digital divulgou um estudo que compara o gasto de energia do bitcoin com o todo o sistema bancário, incluindo os data centers, e o resultado final foi que a criptomoeda consome praticamente metade da energia do sistema bancário atual.

É claro que a questão do uso de energia deve ser discutida e que melhorias podem ser feitas; no entanto, se analisarmos o bitcoin, ele conta com 39% de energia renovável para manter a sua rede, segundo um estudo da Universidade de Cambridge.

Acredito que, apesar de ser um mercado muito mais maduro em relação a 2017, muitas pessoas estão conhecendo as criptomoedas agora e precisam estudar sobre os funcionamentos para que esse tipo de notícias não gere tanta volatilidade.

A minha perspectiva continua otimista em relação aos próximos meses. Mesmo com o comentário do Elon Musk, a Tesla não vendeu os seus bitcoins. Além disso, outras instituições compraram a principal criptomoeda. O mercado segue crescendo.

Como você tem visto os comentários de Elon Musk sobre o mercado de criptomoedas?

Infelizmente, até o momento não concordo com a postura que o Elon Musk está tendo em relação às criptomoedas. Apesar de ter sido muito positiva a notícia de que a Tesla comprou bitcoin, Musk já causou alguns pumps and dumps (inflar e largar) no mercado.

Muitas pessoas que nem conheciam o bitcoin e as altcoins começaram a investir por causa dele. Isso é bom? Sim, porém o Elon Musk já falou bem de moedas alternativas que não possuem fundamento, ou seja, que não têm uma usabilidade. Para quem não estudou o mercado, e investiu apenas porque escutou o Musk falar algo, provavelmente se desesperou nesse momento de queda.

Acredito que mesmo quem comprou bitcoin, mas ainda não entendeu qual é o objetivo da criptomoeda, pode ter saído do mercado nesse momento de volatilidade com uma visão negativa. Diariamente, tanto eu como outros entusiastas e especialistas do mercado trabalhamos para trazer conhecimento para os investidores, e é isso que eu acho que ele deveria fazer quando resolve comentar sobre esse mercado.

Recentemente, a China lançou o iuan digital. No final de maio, o Banco Central do Brasil divulgou as diretrizes para o desenvolvimento de uma moeda digital brasileira. Na sua opinião, quais são as perspectivas para as moedas digitais dos países?

A cada ano que passa, o assunto moedas digitais de bancos centrais (CBDCs, Central Bank Digital Currency) vem se tornando destaque. Atualmente, estamos vendo a China com a sua criptomoeda quase pronta para ser lançada. Além disso, já existem estudos avançados sobre o desenvolvimento de moedas digitais como na Europa e no próprio Brasil.

No ano passado, o Banco Central do Brasil criou um grupo de trabalho para pensar no “real digital” e, recentemente, até divulgou diretrizes de uma moeda digital para o nosso país. Destaco que, apesar de ser muito importante essa evolução, as moedas dos bancos centrais não podem ser comparadas, por exemplo, ao bitcoin, porque elas continuam sendo controladas por governos e instituições, o que foge totalmente da proposta da principal cripto do mercado: a descentralização.

Na minha opinião, de certa forma, com os governos lançando suas moedas digitais e trazendo esse tema para debate, muitas pessoas vão querer entender sobre o funcionamento dessas CBDCs e vão conhecer o bitcoin e as altcoins. Com isso, vamos nos deparar com uma grande mudança na maneira com que as pessoas olham para o dinheiro. Acredito que existe um longo caminho a ser percorrido até que essa forma de olhar para o dinheiro mude, mas, aos poucos, acredito que estamos evoluindo.

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